Literatura
A permanência do Hamlet
Luiz Angélico da Costa
Encenada pela primeira vez em 1601, a grande peça trágica de
William Shakespeare - grande teatro e grande poesia (inclusive
nas falas escritas em prosa) -é, de todas as obras do gênio de
Stratford-on-Avon, a mais intrigante e, talvez por isto mesmo, a
de maior permanência na inquietação crítica dos estudiosos e
na curiosidade intelectual do espectador ou do leitor do texto.
Neste particular, diríamos melhor: do leitor ou do espectador
dos textos, uma vez que Hamlet, a peça, tem sido a obra
shakespeariana com o maior número de leituras através destes
quatro séculos de sua existência. Freud e Lacan, entre outros,
fizeram as suas também.
O mais importante, todavia, é que Hamlet, o homem, é mais que o
personagem: Hamlet, como já se disse, somos todos nós - com
nossas dúvidas e incertezas, nossas aspirações e nossos
desânimos. Segundo o escritor, poeta e crítico Mark Van Doren,
(Shakespeare: 1939) Hamlet tem sido considerado o melhor e o pior
dos homens. Poderíamos então dizer que Hamlet é um epítome da
natureza humana.
Mais do que as peças que lhe deram origem, o Hamlet de
Shakespeare mantém-se como um convite a novas interpretações e
traduções quer em sentido geral ou específico.
Testemunho disto nos dão as diferentes montagens teatrais que o
texto tem tido dentro e fora da Inglaterra ao longo dos tempos,
as inúmeras adaptações e versões em diferentes idiomas,
gravações em fita e em vídeo, e as produções
cinematográficas, entre as quais, a clássica de Sir Lawrence
Olivier e a que se poderia dizer pop de Mel Gibson,
um e o outro no papel título.
Em 2000, produziu-se o curioso Hamlet: vingança e tragédia - em
transposição pós-moderna, na qual o ator Ethan Hawke vive
Hamlet, um jovem herdeiro, aspirante a cineasta, tomado por
crises pessoais envolvendo o assassinato de seu pai e a feroz
disputa pelo poder no grupo que ele presidia, segundo a
sinopse do filme. Todos os personagens do filme conservam os
nomes originais da peça, embora a trama se desenvolva na Nova
York dos nossos dias. A firma em questão tem o nome de
Dinamarca. Para alguns, será uma adaptação-produção
equivocada, mas é impossível negar a ousadia e o charme do uso
das falas dos atores com o próprio texto de Shakespeare (que lhe
atesta a modernidade, diria até contemporaneidade), inclusive em
grande parte dos monólogos do personagem Hamlet e, em especial,
no famoso solilóquio iniciado pelo verso To be or not to be:
that is the question, que eu traduzi por Ser ou não ser:
essa é toda a questão, justificando a minha escolha com a
explicação de que, com o acréscimo do vocábulo toda pretendi,
não somente compor um verso decassílabo, mas também
acrescentar uma carga maior à alternativa filosófica do verso
inicial de Shakespeare, que resume o dilema de Hamlet, a peça e
o personagem-homem-ideologia.
E mais ainda: não fiz apenas uma opção pelo verso branco de
dez sílabas. Como tradutor visceralmente amador, no sentido
literal e ao mesmo tempo amplo do termo, impus-me um desafio de
natureza estética e também profissional: traduzir cada verso do
original por um único verso em português e, além disto, buscar
a maior aproximação possível entre a acentuação fraco/forte
que predomina no pentâmetro jâmbico do blank verse e as cesuras
do decassílabo em português. Acredito ter conseguido isto em
mais de cinqüenta por cento dos meus versos, como, por exemplo,
no verso
Pois quem / do mun/do os ma/les so/freria/,
no qual há claramente um pentâmento jâmbico do inglês em
léxico do português. É evidente que, em situações como esta,
o tradutor há de sempre entrar no jogo das compensações:
perder no ipsis litteris para ganhar na significância geral de
sua reescritura do texto original. Para ilustração, veja-se que
o original diz, palavra por palavra,
Pois quem sofreria (suportaria) os açoites e o escárnio do
tempo,
sendo que tempo aqui é para ser lido por temporalidade, vida no
mundo, condição mortal que é o que está no âmago do
ser ou não ser da realização dramática do Hamlet
em sua totalidade.
Luiz Angélico da Costa, docente livre de Língua e
Literatura de Língua Inglesa, é Professor Emérito da UFBA e
tradutor.
Hamlets soliloquy
(Act III, Scene 1)
William Shakespeare
To be, or not to be: that is the question:
Whethertis nobler in the mind to suffer
The slings and arrows of outrageous fortune,
Or to take arms against a sea of troubles
And by opposing end them. To die: to sleep;
No more; and by a sleep to say we end
The heart-ache and the thousand natural shocks
That flesh is heir to,tis a consummation
Devoutly to be wished. To die, to sleep;
To sleep: perchance to dream; aye, theres the rub;
For in that sleep of death what dreams may come,
When we have shuffled off this mortal coil,
Must give us pause: theres the respect
That makes calamity of so long life;
For who would bear the whips and scorns of time,
The oppressors wrong, the proud mans contumely,
The pangs of despised love, the laws delay,
The insolence of office, and the spurns
That patient merit of the unworthy takes,
When he himself might his quietus make
With a bare bodkin? who would fardels bear,
To grunt and sweat under a weary life,
But that the dread of something after death,
The undiscoverd country from whose bourn
No traveler returns, puzzles the will
And makes us rather bear those ills we have
Than fly to others that we know not of?
Thus conscience does make cowards of us all,
And thus the native hue of resolution
Is sicklied oer with the pale cast of thought,
And enterprises of great pith and moment
With this regard their currents turn awry
And lose the name of action. Soft you now!
The fair Ophelia! Nymph, in thy orisons
Be all my sins rememberd.
O solilóquio de Hamlet
(Ato III, Cena 1)
Ser ou não ser; essa é toda a questão:
Se mais nobre é em mente suportar
Dardos e flechas de ultrajante sina
Ou tomar armas contra um mar de angústias
E firme, dar-lhes fim. Morrer: dormir;
Não mais; dizer que um sono porá fim
À dor do coração e aos mil embates
De que é herdeira a carne!... é um desenlace
A aspirar com fervor. Morrer, dormir;
Dormir, talvez sonhar: eis o dilema,
Pois no sono da morte quaisquer sonhos
- Ao nos livrarmos deste caos mortal -
A paz nos devem dar. Esta é a razão
De a vida longa ser calamidade,
Pois quem do mundo os males sofreria:
A injustiça, a opressão, a vã injúria,
O amor magoado, as delongas da lei,
O abuso do poder e a humilhação
Que do indigno o valoroso sofre,
Quando ele próprio a paz encontraria
Em seu punhal? Quem fardo arrastaria,
Grunhindo, suarento, em triste vida,
Senão porque o pavor do após-a-morte
- Ignota região de cujas linhas
Não se volta - a vontade nos confunde
E nos faz preferir males que temos
A buscar outros que desconhecemos?
Assim nos faz covardes a consciência,
E o natural fulgor da decisão
Sucumbe à débil luz da reflexão;
E assim projetos de vigor e urgência
Em vista disto seus cursos desviam
E perdem o nome de ação. Oh, cala-te!
A bela Ofélia! - Ninfa, em tuas preces
Lembrados sejam todos meus pecados.*
Versão em português, de Luiz Angélico da Costa, linha por
linha, em decassílabos não rimados - à semelhança do blank
verse shakespeariano, quanto à acentuação.
* A fala italizada dos dois últimos versos, dirigida
pessoalmente a Ofélia, (de cuja presença Hamlet acaba de se dar
conta), obviamente não faz parte do solilóquio propriamente
dito. Além disto, a tradução do último verso em decassílabo
não corresponde a um pentâmetro jâmbico no original, porque
este só se completa no inglês com o início da fala de Ofélia:
Good my lord,
How does your honor for this many a day?